Quarta-feira, Julho 01, 2009

Talvez Seja Mesmo Um Conto de Terror


O futebol na rua ia sempre até a noite chegar. Às vezes passava, e mesmo de noite, a pelada continuava. No entanto, a verdade era que o futebol ia sempre até alguém jogar a bola na casa abandonada. O jogo sempre acabava quando a bola parava por lá. Era uma casa diferente. Não só assombrada, mas uma incógnita. Ninguém sabia se era mesmo uma casa assombrada. Mas até que provassem o contrário ela era assombrada. Quando a bola caia por lá, alguém tinha que pular pro quintal para pegá-la e o futebol sempre perdia a graça. Acabava. Era a hora de terminar. Por sorte, a bola nunca tinha quebrado um vidro da casa, parava ali mesmo no quintal. Não até aquele dia.

Todos saíram correndo quando Marcos, o dono da bola, a arremessou longe como um zagueiro nos minutos finais de uma Copa do Mundo. Marcos ficou ali parado pensando na sua bola, que agora estava lá dentro daquele castelo escuro e quieto. Não tinha outro jeito, ele teria que entrar. Não podia correr como os outros e ficar sem a bola. Seu pai não lhe perdoaria. Chorou tanto para tê-la e agora ficaria sem por causa de uma casa escura e calada. Não. De algum jeito Marcos arrumaria coragem para buscá-la.

Pulou o portão, como sempre faziam, entrou pelo quintal. A porta era de metal com preenchimento de vidro. Todos quebrados. Marcos enfiou a mão por fora e abriu a porta, que rangeu como se nunca tivesse sido aberta. Tremeu como uma verdadeira vara verde de bambu. Sentiu um vento que vinha de dentro da casa. Lá fora nenhuma folha de árvore se mexia. O piso era todo de madeira velha que conversava com Marcos a cada passo que dava. O chão falava. Falava para Marcos tomar cuidado. Nunca se sabia o que estaria lá em cima, muito menos embaixo da casa velha. Marcos foi para as escadas, morrendo de medo. Estava muito escuro. Não tinha interruptor. A casa era tão velha que não tinha fiação elétrica. Somente suportes nas paredes para as velas, como nos velhos casarões.

Devagar, Marcos foi subindo uma a uma as escadas. A cada degrau, um rangido diferente. Parecia choro. Marcos pisava e a casa velha se lamentava.

No meio das escadas, o garoto ouviu um barulho. Parecia burburim de pessoas conversando. Que medo teve o jovenzinho. Sua bola já não valeria tanto. Mas além do medo, Marcos teve curiosidade. Que conversa era aquela? De onde vinha? Quem eram essas pessoas? E a sua bola? O que estaria fazendo lá, no meio desse amedrontoso cômodo?

Marcos continuou a subida por aquela escada comprida e castigada pelo tempo. Ouviu o barulho de bola no chão como se jogassem futebol, ali mesmo naquele piso de madeira. Mas Marcos ainda não via nada além de escada. O que estava acontecendo por ali? Marcos rezou e tremeu. Mais tremeu que rezou.

Silêncio. O barulho parou de repente. Marcos não ouvia mais nada. Continuou a subida, devagar, até avistar uma porta. Dela saia um feixe de luz forte. Por baixo, dava para perceber movimentos e uma luz branca e forte no interior do cômodo. Seria uma passagem pra um plano espiritual ou só uma sala de reuniões dos condôminos do bairro? O que era aquilo que deixava Marcos cada vez mais branco e perto da morte? Antes de pensar se sairia correndo ou se desmaiaria ali mesmo a porta se abriu. Uma enorme silhueta se formou diante de Marcos e a porta aberta. O garoto não pensou e só correu como correria em uma última tentativa de manter-se vivo. Correu tanto que não conseguiu ouvir a voz que ria e gritava: “a sua bola, garoto! Não se esqueça da sua bola”.

Marcos não sabia o que contar. A história poderia ser assombrada ou cômica, dependeria de como Marcos a contaria. Sabia que ninguém acreditaria em nada, muito menos seu pai que lhe castigaria pela perda da bola. Mas acima de tudo ficava a pergunta acesa na mente de Marcos: se não tinha energia na casa, de onde vinha aquela luz?

Sexta-feira, Junho 19, 2009

Quebra-cabeça


Ser meio errado
Faz parte da trama.
Talvez se engana
Quem pensa que amor é só flor.
Por mais que por fora
Essa bela viola encante,
Não existe amor que se sustente
Sendo todo lindo e inocente.

Quinta-feira, Junho 18, 2009

A Vez do Pinto (infame)


E a violência no futebol não tem mais limite e agora atenta o pudor das famílias em suas próprias casas (não nas casas próprias).

De frente à tv, pai e filho se divertem vendo os jogos de futebol da Copa do Mundo quando o comentarista do jogo resolveu dar umas lições gratuitas de sexo indiscreto:
- Galvão, no time adversário houve uma substituição. Pinto entra no lugar do Rego.
E o próprio completou:
- Ele deve jogar mais enfiado na posição do Rego, que tem jogado mais recuado.

Sexta-feira, Junho 05, 2009

(D)Evolução


Nossa coluna que era reta
Entortou-se.
Agora as patas vão ao chão,
Bem devagar.
Uma mão vai na cabeça.
Uma coçadinha.
Banana pra todo mundo.
Já passou o tetê-à-tête.
Machado contra machado.
Não tinha covardia,
Pouca tecnologia.
Pouca gente recuando,
Vários outros adiante,
Sem dó, pela sobrevivência.
Hoje poucos se entregam,
Ou lutam pelas causas.
Também estão todas perdidas.
A minoria vai vivendo,
O restante sobrevive.
Muita tecnologia e pandemia,
Miopia, arritmia.
Pouca a nossa inteligência.
Cadê aquela melodia? E a gritaria?
Quem é o dono dessa festa avessa?
Cresça, meu povo. Cresça.
Eu quero me devolver.

Domingo, Maio 31, 2009

Quando Tom Bou


Aos poucos Tom foi acordando. Ainda meio zonzo, notou que estava sentado em uma cadeira, no meio de uma sala escura e fria. De repente Tom sentiu uma pancada forte no rosto que lhe cortou a sobrancelha e fez jorrar sangue por todo seu corpo. Gritou de dor.

Em meio ao liquido vermelho que escorria sobre o seu rosto, Tom gemia e tentava abrir os olhos para enxergar o que estava acontecendo. Desesperado, tentou se levantar quando levou o segundo soco, atingindo em cheio o seu queixo. Desabou. Ele não via ninguém em meio à escuridão, só sentiu o contato daquela mão dura contra o seu rosto amedrontado. Aos poucos foi se lembrando dos últimos momentos antes de acordar ali. Era sua festa de formatura. Tom era mais um em meio a milhares que deixavam a vida acadêmica para se entregar ao trabalho.

Ainda deitado, Tom não conseguia sentir a sua mão esquerda. A mão direita, apesar de livre, não conseguia defende-lo dos socos que vinham de direções desconhecidas. Continuou a apanhar. Os socos agora lhe acertavam o rosto, o estomago, o pescoço. Tudo lhe doía, e quanto mais apanhava, menos conseguia se mexer.

O que ele não sabia é que quem te batia era a sua própria mão. A mão esquerda. Tom era destro, e sua mão direita nunca fez mais do que a obrigação. Nunca fez mais do que o mínimo necessário para viver. Já a esquerda foi mais ousada. Dificultou sempre que podia os caminhos de Tom.

Naquele dia Tom perdeu para si mesmo. Ficou ali, entregue à sua mão esquerda. Sua vida em diante seria marcada por momentos como aquele, em que perderia sempre, sem nem sequer pensar em vencer.

A mão esquerda colocou Tom na lista dos que não encaram a vida como um desafio à vitória, mas sim com medo da derrota.

Formado, Tom agora era mais um... a menos.

Terça-feira, Maio 26, 2009

Verso Da Terra

Quando nasci nessa terra,
Tudo era tão diferente.
Meu pai, como um velho de guerra,
Cuidava da terra e da gente.
Enquanto plantava, meu pai me mandava estudar.
Aí fui morar na cidade.
Pra falar a verdade, fui morrer de saudade.
Queria voltar.
O tempo passou,
Eu cresci.
Muita coisa mudou
E eu nem vi.
E quando na terra de novo eu pisei,

Fiquei muito tocado.
Minha mãe com meu pai ao seu lado,
Pareciam a rainha e o rei.
Êita vida sofrida bocado.
Êita terra bonita, obrigado!


Sexta-feira, Maio 22, 2009

Nem Um Pouco Perfeito



Eu confesso que errei.

Confesso que fiz,

E que deixei de fazer.

Confesso que quis

E não aceitei.

Confesso que peguei

Sem nem mesmo poder.

Que estudei, eu confesso.

Que deixei de estudar, muito mais.

Que não aprendi.

Que eu li.

Que fiz escondido.

Que não dei a mínima

Pro acontecido.

Que briguei, que chorei,

Que eu ri quando não permitido.

Que fraquejei, que não sei.

Que passei despercebido.

Confesso que gostei,

Que zanguei, que olhei.

Confesso também que ouvi.

Que saí e que também não liguei.

Que não vi.

Que já me esqueci.

Que não me lembrei.

Bati, prometi, apanhei.

Me vinguei.

Também me confundi.

Aceitei, subornei e fingi.

Tanta coisa, eu confesso que vi.

Confesso, não me arrependi.

Confesso que é pouco.

Tanta coisa eu confesso.

No entanto, uma coisa eu te juro.

É por você que estou ficando louco.

Quarta-feira, Maio 20, 2009

Mão



Um poema de nada.
Não é homenagem,
Não é sacanagem.
Não é.
Um poema calado.
Um silêncio com rima,
Ou sem.
Não diz.
Desdizer, também não.
Não é bom,
Nem ruim.
Não é caro
Ou barato.
Nao é.
Bonito, bem longe.
Feio, tão pouco.
De gente sã
Ou de louco, não é.
Um poemo que nada diz,
Quiçá contradiz.
Não fala do bem,
Nem também da maldade.
Não é de saudade.
Nem é com vontade também.
Não é de verdade,
Não mente.
Não é fantasia,
Nem realidade.
Cabeludo, barbudo,
Pesado, bem denso.
Careca, lavado,
Bem leve, ralado.
Não sei.
Cansado, malvado,
Bem quente, parado.
Ou não.
Nada de sentimento,
Nada de pensamento.
Que nada.
É coisa nenhuma.
De modo nenhum.
Não é caso algum.
É a mão.
O poeta passivo
Do meu poema de nada.
Sem ser obrigada,
Hoje é ela que escreve.

Segunda-feira, Maio 18, 2009

Velho Moreira: O Profeta



No boteco do Djalma, amigos, cerveja e futebol na mesa.


- Anota o que eu tô dizendo, pessoal. Esse ano não dá outra. Dá Vasco.

- Da segundona, Moreira? Estamos falando da elite e você vem falar de segundona, Moreira?

- Só anota. Só anota – dizia o velho.

- E que time é esse o coringão, eim! O cara também é um fenômeno.

- Esse ano é mesmo o da redenção do timão.

- Poderia até ser, se não fosse a Lusa.

- Lusa, Moreira? O que tem a Lusa?

- Pô, Moreira, Segundona de novo?

- Só anota. Só anota.

- Ei! Tem o Flamengo, pô. Agora com o imperador... Sei não eim?!

- Também não sei não. Vai ter que jogar muito.

- Pois anota essa também. O canhoto vai arrebentar e ainda vai ser artilheiro da Copa esse ano. Só anota. Só anota.

- Pô, Moreira. A Copa é ano que vem. Deixa o cara jogar primeiro, Moreira.

- Tô falando! Só anota. Só anota.

- O Moreira parou no tempo. Só pode.

- Uma dentro, Moreira. Só uma dentro.


Coitado do Moreira. Não é velhice. É saudade daquele tempo em que o futebol era só paixão. Que caboclo tinha que suar a camisa. O craque só seria craque se fosse mesmo um craque e pronto. Do tempo do Pelé, Garrincha, Sócrates, Tostão. Que safra! Mas esse tempo foi embora e dele só restou o Moreiro, o velho profeta. Porém, Moreira também é do tempo que malandro não dava ponto sem nó.


- Moreira! Sua mulher no telefone.

- Xiii! Que marcação, eim profeta!

- Olha a pressão, Moreira!
- Pô, Moreira! É homem a homem?

- Ei! Onde o Moreira vai?

- Volta aqui, Moreira! Não vai pagar a conta?

- Só anota, Djalma. Só anota.

Quarta-feira, Maio 13, 2009

Cara de Pastel



Em uma pastelaria qualquer... Enfermaria qualquer, mãe e enfermeiras disputam a guarda das crianças:

- Pronto, pode pegar o seu bebê.
- Nossa!
- O quê?
- Ele tem uma cara de pastel.
- Deixa eu ver. ah! Desculpa. Toma esse! Dê aqui o meu pastel.
- Olha, não é a cara do pai?
- Sim. Mas o importante é que tem saúde, não é mesmo?
- Coitado! que feio.
- Deixa eu ver. Eita, desculpa! Passa o de carne para cá também.
- E o meu filho?
- Não, obrigada! Estou de regime.
- Cadê o meu filho?
- Aqui!
- Mas esse é de carne. Cadê o de queijo?
- Ei! o meu filho, cadê?
- Pronto, não chora. Olha a enfermeira chegando com o seu de queijo.
- Qual dos dois é o meu filho?
- Esse pastel aqui... quer dizer, esse garotinho.
- E o meu de frango?
- Na mão!
- Ai, que lindo!
- Ai, que gostoso!

Segunda-feira, Maio 11, 2009

Banho Errado



Não tem coisa melhor
Que um banho bem tomado.
Lava a orelha e ao redor,
Só não pode lavar errado.

Banho bom, sem escovão,
Lava a frente e o outro lado.
Lava o braço, a perna e a mão.
Mas não pode lavar errado.

Começa de cima, descendo.
O corpo fica bem lavado.
E pra não ficar fedendo,
Não pode lavar errado.

Agora enxuga, rapidão.
E averigua o resultado.
“Ih, sujou! Errei a mão.”
Sabão em barra é ruim bocado.

Terça-feira, Maio 05, 2009

O Menino da Lua



Quando Marcinho nasceu,

Era dia, dormiu.

Só despertou quando a lua acordou.

Eis que Marcinho surgiu.


Foi assim na primeira semana.

Marcinho apagava quando o sol surgia.

E quando a lua ascendia, Marcinho acordava.

Nunca chorava, só ria.


Na segunda semana sua mãe estranhou.

Correu com Marcinho ao médico,

Saber do doutor o que acontecia.

Não podia Marcinho dormir todo o dia.


Mas o doutor, que quase sempre sabia,

Não soube dizer o que faria à Maria.


Seu filho é forte,

Não tem uma doença,

Logo se acostuma.


Não se preocupe,

Se apegue na crença

Que tudo se apruma.


Foi o que Maria fez.

Todos os dias, antes de se deitar,

Antes do sol raiar,

Rezava mais de um terço por vez.


O pai de Marcinho, Seu João,

Pediu demissão,

Saiu do emprego diurno.

Virou guarda noturno.


Prometeu a Maria

Que faria de tudo, que iria ajudar.

Portanto, fez o que podia:

Levou o Marcinho para trabalhar.


O emprego era bem sossegado.

Marcinho ficava ao seu lado,

Quietinho dentro do carrinho.

Seu pai sempre dando carinho.


Que dó de Maria.

Facilmente perdia a razão.

De dia atolada cuidando da casa,

De noite era fralda e a amamentação.


Até que Marcinho cresceu.

Seu pai já estava cansado.

Era muito difícil ficar acordado

E cumprir o que prometeu.


Sua mãe precisou trabalhar.

Passava o dia na confeitaria.

Marcinho dormindo, não podia falar.

Acordado, sua noite era muito vazia.


Todos os dias, Maria dizia o quanto lhe amava.

Seu filho, no entanto, triste parecia.

Seu pai, a noite já não se agüentava.

Marcinho acordava, Seu João dormia.


Foi então que, em uma fria manhã, Seu João confessou à Maria

Que essa vida ele só deixaria

Quando Marcinho estivesse ao seu lado,

Acordado de baixo da luz do dia.


Era noite, Marcinho acordou.

Como de costume, comeu, se banhou.

Seu pai lhe esperava na sala, calado.

Boa noite, meu filho. Venha cá ao meu lado.


Marcinho, inseguro ficou.

O que fazia seu pai acordado?

Mas também ficou muito encantando.

Sem pensar, ao seu lado sentou.


A noite foi longa, quase não terminou.

E o que João, ao seu filho deu,

Era muito mais que Marcinho sonhou,

Era muito mais que, à Maria, prometeu.


Depois de uma noite ensinando a lição,

Cumpriu, Seu João, a missão.

Marcinho aprendeu a escrever.

Maria, só vendo pra crer.


Antes de o sol nascer,

Seu pai lhe abraçou, muito honrado.

Agora, meu filho, comece a escrever,

Porque é escrevendo que sonha acordado.


Marcinho sentou-se a mesa, com um pouco de medo.

E escreveu sobre o amor que sentia dos pais.

Continuou sem nem ver que logo ficou cedo.

Que as noites sozinhas ficaram pra trás.


Seu pai se deitou, muito exausto, dormiu.

Marcinho só percebeu que era dia

Quando sua mãe perguntou a seu filho o que acontecia.

O menino, que ainda não sabia, sorriu.


Só quando cresceu,

Marcinho entendeu

Que na última noite ao seu lado,

Seu pai havia lhe deixado um legado.


Que, enfim, para a vida ter luz,

Além de gente que com o braço produz,

Precisa também de um outro bocado

De gente que sonhe acordado.

Sexta-feira, Maio 01, 2009

Primeiro Mistério



Toda semana
Roberto enchia sua casa.

Uma semana de milho,
Outra banana,
depois só pequi.

Semana da mexirica,
N'outra abrobrinha
E caqui.

Seu chefe nunca se importava
Com o que Roberto pegava.
Mas fica o mistério:
Com o que Roberto trabalhava?

Quinta-feira, Abril 23, 2009

O Criador


- Pessoal, quero apresentar para vocês o Criador.
- Oh! O Criador! (todos)
- Ouvi dizer que você opera milagres.
- É verdade que transformou briefing em criação?
- Que uma vez ressuscitou uma marca?
- Me falaram que você é um enviado do Nizan, é verdade?
- Calma, gente! me dêem um tempo para pensar que responderei a todos.
...
- Ele acabou de nos pedir um prazo... É ele! É ele!!!

Quinta-feira, Abril 16, 2009

Axé Blasé



Meu gosto musical é limitado. Limito-me a ouvir o que é bom. Mas confesso que já fui mais preconceituoso. Hoje eu admiro o sucesso da música ruim. Até invejo. Me pego pensando sempre “Como eu não pensei nisso antes?”

A fórmula é simples: mínimo de letra possível; sons onomatopéicos são fundamentais; uma gemidinha; palmas; “tcha tcha tcha” e pronto, o sucesso bateu à sua porta. E eu, noite a dentro pensando nas palavras certas. Dicionário, sinônimo, antônimo, tudo para deixar o texto inteligente, divertido, cheio de duplos sentidos com jogos de palavras e mensagens subliminares. Que nada, mané! Vai ganhar dinheiro!

Há pouco tempo vi uma história curiosa. Um dos cantores da dupla Edson e Hudson é considerado um dos maiores guitarristas do Brasil. O cara “mói” na guita, malandrão. Saiu do armário. É roqueiro mas também não é bobo nem nada.

Passei a prestar mais atenção em tudo, desde o “tcha tcha tcha” do axé, às traições absolutamente justificáveis do sertanejo. Tudo virou combustível para o meu sucesso. É como dizia a belíssima canção, que eu não tenho a menor idéia de quem seja, “é disso que o povo gosta, é isso que o povo quer”. Então toma! E estão todos certos, o lance é “bufunfa”, meu irmão. E como também não sou bobo, já estou dando meus pulos.

Minhas referências mudaram. Passei o carnaval observando o jeito, o timbre, as letras das canções. Tudo. Foi aí que comecei a traçar o meu caminho. O caminho da fama, do dinheiro. Então criei o meu primeiro axé, o que vai me fazer subir em cima do trio e levar a massa ao delírio, além do Money pro bolso

Foi observando minhas referências que percebi as singularidades do axé. É mais ou menos assim: você tem que cantar pouco; evocar a massa com um “eu quero ouvir você cantar, vamos lá!”; tirar o pé do chão faz parte do código de conduta do bando; provoque; ameace com um “não quero ver ninguém parado” ou ordene dizendo “eu quero ouvir você cantar”. É basicamente assim.

No entanto, foi pensando na competitividade do mercado que criei o Axé Blasé, que é tudo isso que observei, ao contrário. Posso até dar uma palhinha. É mais ou menos assim:

“Vamos lá!
Ôoooooooo...
Tchá! Tchá! Tchá!
Não quero ouvir ninguém cantar, vamos lá!
Tchá! Tchá! Tchá!
Mãozinhas lá em baixo.
Não quero ver.
Ôoooooooo...
Tchá! Tchá! Tchá!
Quando eu falar ‘já’ eu quero ouvir só eu cantar, vai!
Tchá! Tchá! Tchá!
E ninguém tira o pé do chão, vai!
Ôoooooooo...
Vamos lá!
Agora só eu e ninguém mais canta comigo!
Tchá! Tchá! Tchá!
E nem mais uma vez, vai!”

Bem, a letra ainda não está pronta, falta o retoque, um pouco mais de euforia, quem sabe. Mas, de forma geral, é isso. Espero que gostem.

E muito axé para vocês.

Quarta-feira, Abril 15, 2009

Pitada de Sal


Apesar de todas as recomendações, nao consigo parar de comer chocolate. Por enquanto, não sou gordo nem obeso. Mas é difícil parar de comer. Chocolate em barra, em pó, em calda. Em casa, no trabalho, na igreja, debaixo da mesa. Pipoca com chocolate, banana com chocolate, xucrutis com chocolate, uma casa de chocolate.

Mas a vida encurta com tanto chocolate, eu sei que encurta. Assim como encurta com o cigarro, com a bebida e com o suicídio. Encaro assim: antes morrer feliz que morrer magro, triste e sem graça. Chocolate tráz felicidade, galera!!! wuhuuuuu!

Mas é o seguinte, vou revelar um segredo. A pitada de sal. Sabe aquela pitadinha de sal que a vovó põe no bolo, na torta, na fralda?É o segredo. O sal equilibra a briga no seu corpo. O açúcar é um gordinho safado, preguiçoso e ordinário que fica lá dentro tirando onda de bonitão e casquinha do seu estômago, rim e instestino, e que no fim joga a bagunça toda pro reto. Já o sal é um bixinho magrinho, forte e disposto. Quando entra no corpo desbanca o açúcar.

Por isso é só uma pitada. É o necessário. Daí a expressão "tudo que é exagero faz mal". Um dia resolveram acabar com o mal do açúcar, entupiram um coitado de sal. Quase morreu desidratado. O sal tem que ser na pitada certa. Ele entra no corpo empenhado em morrer pela causa. Como entra em desvantagem, acaba perdendo. Esse sim é o destino do sal, a morte. Mas é só vovó errar na mão, báu báu açúcar.

Coma chocolate à vontade. Na hora do aperto, pitada de sal. Mexa devagar. Equilibre o jogo. Não deixe o gordinho saliente achar que ele que manda. É ele que manda. Mas não deixe ele achar.

Quinta-feira, Setembro 25, 2008

Boceje



De frente a uma lanchonete conhecida e movimentada, eu observava o ambiente. O local ainda estava vazio no começo do expediente. Lá dentro os funcionários aguardavam a clientela. Estava displicente enquanto o sinal do cruzamento não abria, quando ele passou. Começou com o funcionário lá da ponta que bocejou e entrou. Em seguida, o outro que estava mais próximo, bocejou sem dar muita importância pro que estava acontecendo. O que estava na outra ponta da saída, e mais próximo de mim, também bocejou e, por fim, bocejei.

O bocejo passou e ninguém deu a mínima. Mas pra onde será que ele foi? Naquela hora resolvi segui-lo, em vão. Era tarde demais, passou tão rápido que não deixou qualquer vestígio senão o de nós quatro boquiabertos bocejando. Acredito que seguiu o seu caminho rotineiro daquela hora. Talvez, todos os dias, naquela mesma hora, o bocejo passe lembrando àqueles funcionários que é hora do bocejo. Suponho mais, que o bocejo passe trazendo alguma mensagem, de algum lugar por onde tenha passado.

Não vejo no bocejo coisas más. As mensagens que me refiro devem ser de paz, pois quando se boceja se acalma, nem que seja por alguns segundos.

O bocejo pode fazer mais por nós. Talvez ele seja mal aproveitado, ou subutilizado.

O bocejo aparece, por pelo menos, três vezes ao dia. Pela manhã quando se acorda, depois do almoço antes do cochilo e a noite. Acredito que ainda dê uma passadinha na madrugada, trazendo as primeiras (ou últimas) notícias do dia para os noturnos.

Ah, se soubéssemos o valor de um bocejo.

Na idade média, por exemplo, quando os maridos largavam suas donzelas e filhos em casa e passavam longas datas em batalhas deixando todos aflitos e sem esperanças, todos já bocejavam.

- Mãe, acorda! Está vindo o bocejo.

E a esposa saudosa se aprontava correndo ansiosa pelo bocejo do norte, onde estava seu par, que lhe traria a calma para suportar momentos dolorosos de guerras sem fim.

O bocejo é um momento de pausa, de reflexão. Não se faz outra coisa enquanto se boceja que não seja o próprio ato de bocejar. Em uma discussão, por exemplo, no momento mais quente da briga, o bocejo surge como um apaziguador. Nada como um grande e demorado bocejo para se arrepender, esfriar a cabeça e ver que realmente não vale a pena tudo aquilo.

Claro que às vezes um bocejo fora de hora pode nos deixar sem graça. Nada mais desconcertante que bocejar enquanto lhe perguntam o que achou da palestra que acabou de terminar.

Fora isso, o bocejo é bom. Diminui as diferenças. Todos bocejam, desde os mais pobres aos mais ricos. Brancos e negros bocejam. Os chineses bocejam. Ele não distingue credo ou sexo. Até mesmo os mais velhinhos se deliciam nessa passageira calmaria.

Aposto um mirréu que você não termina esse texto sem bocejar.

Boceje! Não deixe que ele passe por você despercebido. Escute o que ele tem pra te contar. Ou boceje por um instante de calma, apenas.

Quarta-feira, Maio 28, 2008

Meu pobre poeta


Poema decassílabo,
Decatônico,
Decadente.

Polissílabo tônico,
Monossílabo átono,
Sem uma sílaba, carente.

Deficiente na estrofe
E devidamente demente.
Verso pouco versado,
Mesmo cantado é calado.

Rima Rica...
Pobre poeta.
Das rimas pobres,
A mais discreta.

Seu ponto forte
É seu ritmo fraco,
Cadente, evidente.

Tantos pontos fracos
Que seus versos tontos
Parecem boca sem dente.

Sem saber do que diz,
Apenas escreve
Sem dizer o que quis.

Sem saber, não percebe
Que é por amor que escreve
E por ela que mais um verso eu fiz.

Domingo, Março 23, 2008

Dono da Noite











É quando me deito pro sono
Que acordo pra vida.
Em meu sono eu sou dono.

E a porta do sonho se abre.
Sem pranto...
Sem tantos e tantos outros donos.

Só eu que mando e desmando.
Eu Vôo e caio.
Como n'um desenho, levanto.

Espanto as más linguas,
Me encanto com as boas.
Não me desencanto.

Só canto e canto as sereias,
As bonitas e as feias.
É sonho, eu mando e desmando.

E só quando se acaba
Que o meu mando deságua na cama
E não volta.

Amanhã, se a chuva chegar,
Vou me deitar logo cedo
E mandar, e mandar e mandar...

Sábado, Março 08, 2008

O meu Dó-Ré-Mí-Fá



Faço um Ré.
Ela: 'tem dó'.
Faço um Fá.
Ela, lá longe.

'Vou compor...'
Ela nao deixa.
Me descomponho
Em si.

Dou o tom,
Vou de Mi.
Ela: 'me esquece!'
Vou dormir pensando em sol amanhã.

Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008

Te Olhar de Longe


Te vejo de longe,
E é bem perto do medo
Onde sempre me escondo.

Me falta coragem,
As vezes penso: é bobagem.
Mas logo me desentendo.

A minha dificuldade
Vem da ansiedade
De contigo ficar pro resto da vida.

Assumo parte da culpa,
Mas a outra metade
É culpa de ser tão linda.

Assumo até a vontade:
Te ter de verdade
É o que eu mais quero, querida.

Mas esse tal do medo
Não me deixa tentar.
Não me deixa tentar.

Só me deixa te olhar de longe.
Te olhar de longe.
Te olhar de longe...

Sábado, Janeiro 05, 2008

Conversa de 2 mil e oito






O baile já tinha acabado, e os dois amigos perambulavam pela rua rumo ao ponto de ônibus. Ambos haviam bebido muito na virada, mas já era quase dia e o alcool já tinha feito o efeito há um tempo. Esta fase da bebida é anestésica, é nela que as histórias mais sem nexo saem pela boca como num refluxo:

- Ano novo, vida nova... cadê?
- Cadê o que?
- A vida nova, pô!
- Sei lá!
- Todo ano é assim, a gente deseja uma vida nova, novos sonhos, novos pedidos, pra no fim tudo
continuar o mesmo.
- Mas você queria o que, Tamiro? que acontecesse assim, como mágica?
- É! já pensou? meia noite, todas as mulheres feias do salão somem e de repente o baile se enche de mulheres bonitas. Os garçons viram garçonetes peitudas e safadas. A banda dá lugar a dançarinas de pole dancing, igual a novela...
- Foi isso que você pediu? um monte de gostosas para o novo ano?
- Esse ano não, ano passado. Lembra que só tinha mulher feia na festa? eu fiquei puto, pô! ia pedir o que?
- Sei lá, saúde, paz...
- Isso a gente pede sempre, e nunca adianta... você mesmo, que paz teve com seu casamento no ano passado? o casamento acabou e tu quase morreu de pneumonia. Não adianta, Carito. Pedido de ano novo é fantasia, pra encher a gente de falsa esperança, pra gente continuar a trabalhar, gerar dinheiro pros outros e para os nossos chefes terem anos de paz e saúde. Esses sim terão paz e saúde o ano inteiro.
- É... já pensou? dá meia noite e o ano vira e a gente percebe que não é 2008 e sim... 2030? pegaríamos nossas naves e iriamos embora pra casa, num instante.
- Nave? até lá já terão inventado o teletransporte. A gente entraria em uma capsula que nos teletransportaria para nossas casas, num instante estaríamos dormindo em nossas camas...
- O ônibus! corre Carito!

Os dois entraram na capsula. A viagem era longa, eles eram vizinhos e moravam do outro lado da cidade. Dormiram. Ambos só iriam acordar quando chegassem em casa, quase como previu Tamiro.

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

O (Ré)encontro

- Pablo!
- Ernandes! Que surpresa!
- Eu que o diga, há quanto tempo! desde...
- O fiasco do nosso primeiro show, lembra?
- Claro que lembro. Fracasso total (risos)
- Quando o Sol Ficou Com o Dó!
- Nossa única música... (risos)
- Coisa do pirado do Franci... que música, ahm?
- Coisa minha!
- Sua o quê?
- A música é minha.
- Conversa...
- Sério!
- A gente também era moleque, não sabia de nada...
- É, é passado! e você, largou a música?
- Nada, pelo contrário. Eu pensei em largar mesmo mas meu destino estava traçado e quem sou eu para querer mudá-lo, nao é? (risos)
- Claro, você tocava muito bem.
- Gentileza sua! Mas hoje tenho minha banda, se chama Sound System Off. Já estamos no segundo álbum, fazendo alguns shows... indo bem! e você, o que está fazendo?
- Você não vai acreditar a coincidência. Larguei a engenharia semestre passado e estou estudando para entrar na Faculdade de Música.
- Ah... então você vai insistir...
- A gente nasceu pra isso, Pablo! é o destino. Lembra como a gente se divertia?
- E aquela brincadeira que a gente fazia? eu tocava uma nota e você tentava adivinhar... Você nunca acertava (risos).
- A gente se divertia, né? Hoje são outros tempos, eu melhorei, a coisa ficou mais séria.
- Sei...
- A gente amadurece, aprende com os erros...
- Aham...
- Eu também formei uma banda!
- Que maneiro, Ernandes! qual é o nome? Inimigos...?
- Nós ainda não conseguimos chegar a um acordo, mas está saindo, está saindo...
- Ah tá... e os shows?
- Logo logo, Pablo, logo logo... a gente ainda não tem baterista e meu violão está sem cordas, mas em breve vamos fazer barulho, oh yee!
- Ô! se vão...
- A gente podia se encontrar depois pra fazer um som e pá...
- É, vamos sim, um dia desse...
- Você não está botando muita fé que eu melhorei, né Pablo?
- Não, não é isso, é que estou atrasado... tenho um ensaio agora, nós vamos abrir o show do Rappa lá em Sampa mês que vem, pira! e a galera já deve estar lá no estúdio me esperando.
- Pô, que maneiro! eu vou lá com você, estou à toa mesmo...
- Não sei... o estúdio é pequeno...
- Eu não me importo, Pablo, vamos!

...

- Pablo! toca uma nota aí pra eu adivinhar... deixa eu te mostrar que melhorei.
- Pô, Ernandes! espera a música acabar...
- Quem trouxe esse pentelho? (alguém gritou do fundo)
- Foi mal moçada, foi mal... continua que está massa, vai!

...

- Agora, Pablo! pode mandar qualquer uma.
- Tá bem, Ernandes, aí você deixa a gente ensaiar. Lá vai... (TOM TOM TOM) Qual é?
- Fá!
- De novo, Ernandes, presta atenção! (TOM TOM TOM)
- Sol!
- É Lá, Ernandes, Lá!
- Pô Pablo, é essa sua guitarra desafinada...
- Lá fora, Ernandes! Lá fora!

Sábado, Dezembro 08, 2007

A Culpa é da Antítese ou O Fim da Democracia

- e deus, eim?
- o que tem deus a ver com o corinthians?
- aquele tanto de gente rezando... é rezando ou orando?
- no caso, os dois.
- então...
- ele é onipresente.
- quem?
- deus, pô! é onipresente, estava em todo lugar.
- mas então... deus é onipresente e perfeito. Ele deveria ter sido mais democrático. Era a maior torcida do Brasil.
- é!
- viu, até você concorda.
- não, não era! É a maior torcida do Brasil.
- sério, onde estava deus naquela hora?
- deus é onipresente. Estava em todo lugar.
- então foi o diabo, só pode! O diabo é onipresente?
- pô, sei lá! mas o Goiás ficou.
- Foi o diabo!

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

A prova

- Professora, eu preciso que a senhora me libere mais cedo hoje.
- Porque?
- Não estou passando bem.
- E o quê você tem?
- Pirirí!
- Alô?
- Não professora, eu disse que estou com pirirí. Diarréia.
- Vai cagar!
- Poxa professora, o que eu disse?
- Está liberado, foi o que eu quis dizer.
- Ah!
- Me traga um atestado na próxima aula.
- Mas é que eu não vou ao médico, eu só preciso ir pra casa... e rápido.
- Mas eu preciso de um comprovante, um atestato...
- Está bem, professora. Na próxima aula lhe trago minha cueca!

Quarta-feira, Novembro 07, 2007

De duas, uma

O melhor de ficar só
é o sentimento de iminência da paixão
em cada nova ilusão.

...

Não vou dizer só o que você quer escutar.
Nem é que eu seja assim tão pouco romantico,
É que bom é dizer que te amo
Quando você ainda acha que te adoro.

Quarta-feira, Outubro 24, 2007

Nós dois, ou um












Pezinhos juntos...
Um bem frio, o outro quente.
No frio é bom ficar assim,
Bem pertinho, dente com dente.

Nesse clima qualquer filme fica bom,
E debaixo do édredon a gente inventa.
Faz careta e me faz rir, tu tens o dom.
E é brincando que a temperatura aumenta.

A noite é longa e passa tão depressa.
Fizemos tudo, tudo muito bom à beça.
Comeu, bebeu e se cansou, depois dormiu.
Fiquei te olhando a noite inteira, você nem viu.

Ruim é me acostumar
A só viver assim, colado.
E quando nao estiver aqui, eu vou sonhar,
E vou lembrar como é ficar bem ao seu lado.

Terça-feira, Outubro 16, 2007

Banalizaram o Patê

Os mistérios, antes de serem revelados, são compartilhados por grupos seletos que não 'degustam' a qualidade do mistério, mas sim a sua capacidade de ser seletivo. Quanto menos pessoas sabem, mais misterioso é e, consequentemente, mais valoroso fica.

Porém, o que eu quero aqui não é desvalorizar esse mistério, pelo contrário, é devolver o valor misterioso que a gastronomia lhe retirou depois de tanta contribuição, principalmente a nós, homens solteiros e desajeitados.

Pois sim, estou pronto para revelar os segredos da minha cozinha. Não sei se a crítica está pronta pra se decepcionar... fazer patê é uma arte!

Há um mês atrás aprendi a fazer patê. Pra mim, o maior mistério da arte culinária. Patê. "Mas porque o patê e não a cuisine bourgeoise da França?" porque eu nunca ouvi falar e não tenho a menor idéia do que isso seja, além do que, patê é barato e incrivelmente fácil de preparar (e misterioso).

Venha comigo nessa literal 'viagem' e logo você será o maior Patezeiro do mundo. Comece indo ao supermercado mais próximo, ou o de sua preferência, de preferência o mais próximo, e compre um frasco de maionese. Depois de pagá-lo, volte ao mesmo supermercado para comprar o que você se esqueceu... (foi assim que eu fiz, deu certo, é um mistério). Compre outro frasco de qualquer outra coisa que você gostaria de ter no seu patê, pois o que você quer ter é Patê e não Pavê (belíssimo trocadilho!).

Porém, você deve entender: quer patê de atum, compre um frasco de atum. Quer patê de frango, compre um frasco de frango(?!?!), e assim respectivamente.
Devo observar que depois de comprados os frascos, voltar pra casa é fundamental.

Volte e coloque os frascos sobre a mesa. Arrume-os preferencialmente de modo que a ordem seja irrelevante. Desorganize a mesa. Faça parecer que aquela 'zona' é tua ordem, e que essa ordem é crucial para a obtenção do ponto certo do patê. Será um mistério.

Por fim, misture a maionese com o que você comprou.

Está pronto o patê.

E bon appetit!!!

Sábado, Junho 02, 2007

Todos os sentidos

















Fico cego de amor se não vejo,
E escuto tudo que não devia.
O coração sente tanto
Com as coisas bobas que eu não sabia.

Daí, quando vejo me finjo de surdo.
Porém eu já sei que no mundo não há
Som mais profundo que o grito mudo
Daquele silêncio antes de me deitar.

Minhas mãos ficam quentes
Quando sinto chegando aquele cheirinho.
Velho conhecido, que renova a vontade,
Transborda o sorriso carente daquele beijinho.

É que paixão não tem muito sentido.
Às vezes é bom, noutras fico perdido.
Melhor é estar envolvido,
Da ponta do dedo do pé ao canto do pé-do-ouvido.

Segunda-feira, Abril 02, 2007

Coitada Marcinha.


O que faz Belinha
Essa hora na praça,
Sentada, sozinha
E cheia de graça?

Vou fazer picuinha.
Vou contar pra vizinha
Que aquela galinha
Gostou do seu par.

Também vou contar
Que de noite, quietinha,
Aquela neguinha
Vem ver Omar.

E que Omar
De mancinho, levanta.
Deixando Marcinha com cara de anta,
Começa a andar.

Chega à praça, no sapatinho.
Encosta em neguinha, devagarinho,
E começa a amar.

E amando se juntam em um só.
De Marcinha, tenho tanta dó.
E por isso vou picuinhar.
Vou contar pra Marcinha do par.

E Marcinha, tadinha,
Antes que eu me queixe,
Não viu que Omar
Não estava pra peixe.